Aprenda a tomar decisões sobre o seu dinheiro.

Aprenda a tomar decisões sobre o seu dinheiro.

Cinco dias intensos.
Cinco minutos e uma planilha bem montada…

Cinco dias para esquecermos de tudo.
Cinco minutos e uma planilha na qual (achamos que) não esquecemos de nada…

Cinco dias de alegria contagiante.
Cinco minutos para termos o “conforto” de como nossa vida financeira deve ser ao longo deste ano…

Cinco dias onde “tudo pode”.
Cinco minutos que vejo que posso muito… ou pouco posso…

Cinco dias de carnaval.
Cinco minutos (ok, pode ser um pouco mais de tempo…) de um planejamento financeiro feito…

E agora, José?

Carlos Drummond de Andrade, poeta, contista e cronista brasileiro, considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX, escreveu, em 1942, o poema “José”, como ilustração do sentimento de solidão e abandono do indivíduo na cidade grande, a sua falta de esperança e a sensação de que está perdido na vida, sem saber que caminho tomar, sensação que estimo muitos de nós termos ao fim do carnaval e também em relação as nossas finanças pessoais.

Escreveu Carlos Drummond:

“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?”

José sou eu, pode ser você, enfim, somos todos nós na agonia de uma busca momentânea por prazer e realização.

Parece com o carnaval?

Parece, não é mesmo? E muitas vezes este é o comportamento que também temos em relação ao nosso dinheiro e planejamento financeiro pessoal:
“Como eu organizo o meu dinheiro da melhor forma possível para meus objetivos?”
“Qual é a melhor rentabilidade que posso derivar de meus investimentos?”
“Qual é o melhor plano para eu me aposentar e ter uma vida confortável?”

Perguntas legítimas, mas que não deixam de denotar uma agonia que existe quando temos nossa vida organizada para resolver problemas ao invés de termos nossos olhos fitos em viver na melhor versão que podemos viver.

O planejamento financeiro até pode libertar as pessoas, mas creio que tem criado mais agonia do que paz, mais dúvidas do que clareza, mais medo do que liberdade.

Reparem que o José do poema é alguém como eu, talvez como você, que ama e protesta, ou seja, alguém que, apesar da simbologia do nome comum, é alguém que se engaja, mas se engaja no quê?… para que?… Esta resposta teremos apenas no último verso do poema…

Mas antes, a segunda estrofe.

“Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?”

Nesta parte José está sozinho e experimenta a ausência de tudo. Se ao fim tudo mofa, no começo da estrofe, tudo começa com José sem uma companheira.

A companhia de alguém é fundamental para o ser humano. Isso vem desde Genesis, capitulo 2, passa por Drummond e materializa-se na minha e na sua vida. Precisamos de alguém, mas a mensagem vai além disso e a aplicação nas finanças pessoais é bem clara.

Vai além disso pois homem e mulher, essencialmente iguais, mas funcionalmente diferentes, devem ser complementares e interdependentes na relação com as finanças pessoais. A aplicação é prática pois ambos deveriam, para a melhor versão do planejamento, participarem da construção e da prática do planejamento juntos.

Infelizmente isso muitas vezes não acontece, com um ou outro “tocando” esta parte da vida.

Cuidar do planejamento financeiro não é uma prática meramente operacional. Não há problema em um ou outro cuidar das compras do supermercado, ou da logística dos filhos, ou do pagamento das contas no banco on-line, mas a atitude do diálogo, do planejamento, deveria ser conjunta, intencional e afetuosa. Reparem na ordem dos 3 primeiros versos desta segunda estrofe, aqui repetidas:

“Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,”

Está sem mulher (não sabemos ao certo se José é solteiro ou se é casado, mas sabemos que está distante de sua esposa), portanto está sem diálogo, portanto está sem carinho…

E o resultado disso?

“já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,”

José se vê tolhido e amplamente restrito. E é isso o que ocorre na vida de muitas casais quando não se ocupam com o necessário diálogo que é preciso no contexto e um verdadeiro planejamento financeiro pessoal.

Muitos casais se veem sem dinheiro, sem a possibilidade de se divertir… na escuridão do dia-a-dia, sem a perspectiva (luz, quiça, utopia) de dias melhores…

E agora, José?

Em termos práticos, aplicados às finanças: isso é o que ocorre em muitos casos quando a ausência do diálogo financeiro e da comunhão financeira entre casais leva um ou outro a tomar decisões que afastam a cônjuges e filhos do tipo de família que gostariam de se tornar.

E geralmente estas decisões se materializam na compra de coisas e mais coisas que formam o patrimônio da família e cada vez menos no uso do dinheiro destinado à experiências de convívio que formarão o caráter da família.

E daqui vem a terceira estrofe:

“E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?”

Neste momento eu vejo José como um homem contabilizando as coisas materiais que tem (lavra de ouro, terno de vidro), o conhecimento que adquiriu (sua biblioteca) e os prazeres efêmeros que comprou (gula e jejum)… Mas cadê o convívio que percebemos ser (in)existente na estrofe anterior?

Isso me remete, mais uma vez, a narrativa de muitos de nós, quando apontamos o nosso planejamento financeiro para as coisas que podemos comprar e para o patrimônio que podemos ter, ao invés de direcionarmos nossos recursos para aquilo que verdadeiramente importa… E agora, José?

Minha família é a coisa mais importante para mim, mas uso meu tempo / meu conhecimento / minhas relações / meu dinheiro dedicado à isso?

Incoerência é o resultado do planejamento deste José… E do meu? E do seu?

E olha que José, segundo a licença poética que me é dada pelo poema e o consequente paralelismo com as finanças pessoais não conquistou poucas coisas não!

Isso é o que mostra a quarta estrofe:

“Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?”

Ele está com a chave na mão. Ele está com tudo o que precisa. Ele tem o dinheiro que planejou ter. Mas não há porta, mas não há família, pois não há esposa.

José quer morrer, mas nem isso ele consegue. Morrer pode ser esquecer, fingir que não aconteceu, que está tudo bem (algo propício em momentos de carnaval…), mas nem isso ele consegue… Afinal, quem consegue?

Minas é a estado natal de Carlos Drummond de Andrade… O que sinaliza o poema como uma “ode a si mesmo”, o que, ao meu ver, joga ainda mais relevância ao relato poético, pois mostra coragem em se revelar de forma tão dramática.

Minas é o voltar no tempo, o reconhecer e se arrepender… Mas nem isso ele pode pois Minas não há mais…

E agora, José?

“Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!”

No começo do poema José estava em uma festa, ao longo dos versos podemos interpretar a ocorrência de algumas conquistas materiais na vida de José, como também podemos perceber, no começo da segunda estrofe, o começo do fim, quando José se vê sem mulher, sem diálogo…

José está só, com conquistas, com patrimônio, mas olha para a vida e percebe a incoerência de suas atitudes, de seus esforços.

O que lhe resta? Gritar? Gemer? Tocar? Isso tudo seriam apenas distrações na vida de José… distrações que se intercalam com dormir, cansar-se…

Infelizmente esta estrofe pode ser a narrativa de muita gente que usa o planejamento financeiro pessoal como busca de uma aposentadoria confortável sem a sensibilidade de perceber o que há ao longo do caminho.

E por caminho refiro-me aos relacionamentos, a criação de filhos, a compra de experiências, ao uso do tempo e tudo o mais que envolve uma vida que vale a pena ser vivida, uma vida que vale a pena ser planejada.

Entendo que José seja rico, mas está duro, e por isso não morre. Não morre pois não pode morrer… É como se José sentisse a necessidade de se redimir…

O sentimento que emerge antes da última estrofe é: Será que José tem tempo? Será que ele consegue?

E temos a última estrofe:

“Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?”

José, para onde?
Esta deveria ter sido a primeira pergunta para José e não a última. E esta é a primeira pergunta de um verdadeiro planejamentro financeiro pessoal.

A primeira pergunta é “E agora, José?”
“E agora…” é uma pergunta que invoca o imediatismo, o presente… O sentimento do carnaval… O sentimento e a orientação que muitos temos em um paralelo com nossas finanças pessoais?

E agora, José, qual é o melhor investimento?
E agora, como resolvo minhas dívidas?
E agora, como melhoro o papo de grana em casa?
E agora, como ensino meus filhos a se relacionar melhor com o dinheiro?
E agora, José?

E se…
E se aprendêssemos a conduzir o diálogo do planejamento financeiro pessoal como instrumento do “José, para onde?” e investíssemos tempo e recursos (emocionais e financeiros) para a elaboração de uma narrativa mais centrada no que realmente importa?

E se jogássemos fora o efêmero que há em uma planilha feita em alguns minutos e na automação das finanças pessoais e investíssemos tempo e dedicação para o que realmente importa?

E se nos preocupássemos menos com o planejamento financeiro e nos ocupássemos mais com o planejamento de vida?

E agora José, para onde? O que realmente importa em sua vida?

Com carinho,
André Novaes

Sobre o Autor

André Novaes é empreendedor formado em administração de empresas. Acumula experiência no varejo e mercado financeiro, tendo atuado em empresas como 3M do Brasil, Credit Suisse Hedging Griffo, e Prudential do Brasil. Como empreendedor, a sua jornada começou em 1998, quando montou a sua 1ª empresa, um site de internet que posteriormente foi vendido em 2000. Especialista em planejamento de vida, proteção financeira e investimentos dinâmicos, atua como pesquisador e planejador, professor e palestrante, com a missão de conduzir as pessoas e famílias brasileiras à auto- gestão responsável de sua vida e finanças, reconduzindo a família ao centro do planejamento de vida. Em 2007, André Novaes fundou e atua como CEO da LifeFP™. Em 2016 escreveu o manifesto “Uma Nação em Sua Melhor Versão” e criou a LIFE Academy como a plataforma que planejará a vida milhões de brasileiros e transformará a relação das pessoas com o dinheiro.

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